Novo colegiado substituirá comissão em que as ditaduras se autoprotegiam. EUA tiveram proposta derrotada. Foi difícil dar esse primeiro passo na reforma
da ONU, um extenso programa de mudanças com ambição de tornar mais
respeitada e eficiente a sexagenária organização internacional. Foram
cinco meses de negociação entre os países-membros para conseguir um
texto amplo o suficiente para ter o apoio de todos mas na última hora
os EUA anunciaram que votariam contra se o texto não fosse reescrito e
incluísse as suas reivindicações.
Helena Celestino
O Globo
NOVA
YORK. O representante dos Estados Unidos fez questão de mostrar seu
desagrado: manteve-se ostensivamente de braços cruzados e cara
emburrada, enquanto o plenário da Assembléia Geral da ONU aplaudia a
aprovação do novo Conselho de Direitos Humanos, por 170 votos a favor,
quatro contra, e três abstenções. Israel, Palau e Ilhas Marshall
acompanharam o não dos americanos; Venezuela, Bielorrússia e Irã se
abstiveram.
— Nós não temos suficiente confiança no texto para
afirmar que o Conselho de Direitos Humanos vai ser melhor do que a
Comissão — disse John Bolton, o chefe da missão americana na ONU,
explicando o seu voto e referindo-se à desacreditada Comissão de
Direitos Humanos.
Foi difícil dar esse primeiro passo na reforma
da ONU, um extenso programa de mudanças com ambição de tornar mais
respeitada e eficiente a sexagenária organização internacional. Foram
cinco meses de negociação entre os países-membros para conseguir um
texto amplo o suficiente para ter o apoio de todos mas na última hora
os EUA anunciaram que votariam contra se o texto não fosse reescrito e
incluísse as suas reivindicações. O presidente da Assembléia Geral
considerou que o pedido faria abrir uma “caixa de Pandora”, mas adiou
por alguns dias a data marcada para a votação do projeto.
— Eu
acho que é normal no processo democrático, tudo bem se você não
consegue a unanimidade. Se uma grande maioria dos membros apóia, vale
também — disse Kofi Annan.
A primeira reunião do novo Conselho
será dia 1 de junho, em Genebra. Ele tem o apoio da maioria das
organizações pacifistas e de defesa das liberdades democráticas, além
do de 13 prêmios Nobel que assinaram um artigo defendendo a rápida
criação desse novo fórum. O conselho terá como tarefa denunciar
violações da dignidade humana e ajudar na criação de legislações mais
modernas sobre direitos humanos, substituindo a desacreditada Comissão
de Direitos Humanos — da qual fizeram parte alguns dos países com uma
história de violação das liberdades democráticas. Foi desenhado para
ter a mesma importância do Conselho de Segurança e do Conselho de
Desenvolvimento Econômico e Social: será composto por 47 membros, em
vez dos 53 da comissão, eleitos por maioria simples — 96 votos — e em
votação secreta. A América Latina e o Caribe terão oito representantes.
A atual Comissão de Direitos Humanos, cuja reunião anual começou em
Genebra segunda-feira, suspendeu o encontro à espera da decisão da
Assembléia Geral que tentou até o último momento conseguir o apoio dos
Estados Unidos. Bolton disse que seu país trabalharia com o conselho
mas via com pessimismo a decisão de não exigir que os membros fossem
eleitos por dois terços da Assembléia Geral e de o texto não prever um
critério para excluir do fórum os países com histórico de violação de
direitos humanos e participação em atos terroristas.
Falando em
nome de Brasil, Colômbia, Guatemala, Paraguai e Uruguai, o embaixador
brasileiro Ronaldo Sardemberg considerou o conselho um marco na
promoção dos direitos humanos e lembrou que é hora de tratar da reforma
do Conselho de Segurança.
Jornal do Brasil
Nações Unidas contra abusos
16/03/2006
Criado por 170 países, Conselho de Direitos Humanos substitui comissão
desgastada. EUA e Israel votaram contra a proposta
NOVA
YORK - Em uma decisão histórica, que marca o início de uma reforma em
sua estrutura, a Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas
(ONU) criou um novo órgão de defesa dos direitos humanos. O anúncio foi
recebido por longos aplausos, após a votação pelo placar de 170 a 4,
com 3 abstenções. Além dos Estados Unidos e de Israel, Palau e ilhas
Marshall votaram pelo não. Abstiveram-se a Bielorússia, o Irã e a
Venezuela.
O novo conselho, com 47 integrantes, substituirá a
desgastada Comissão de Direitos Humanos (CDH), que tem sede em Genebra
e 53 integrantes. O fórum foi bastante esvaziado nos últimos anos,
quando alguns dos maiores violadores dos direitos humanos não só
ganharam assento na comissão - como China e Cuba - como chegaram a
presidi-la - caso da Síria e da Líbia. Também contou para o desgaste a
tendência de condenar os pequenos países e nunca as potências. O novo
conselho terá a função de expor os violadores e de ajudar os países a
criar leis específicas na área.
Ao explicar as razões do voto em
contrário, o embaixador dos EUA na ONU, John Bolton, disse que as
regras do novo conselho não são rígidas o suficiente para evitar que
aqueles que sistematicamente desrespeitam direitos humanos voltem a ter
espaço. Mas a derrota diplomática não significa que os americanos
boicotarão a entidade.
- Não tínhamos confiança suficiente neste
texto para dizer que o conselho será melhor que seu antecessor. Dito
isso, os EUA vão trabalhar em cooperação com outros Estados-membros
para torná-lo o mais forte e eficaz possível - disse Bolton.
Cuba,
que havia proposto quatro emendas, votou a favor da criação, embora
tenha feito uma lista de objeções e chamado o organismo de uma criação
do Ocidente. O embaixador cubano Rodrigo Malmierca aproveitou a ocasião
para criticar os Estados Unidos.
- Será possível que o novo
Conselho aprove uma resolução pedindo que os Estados Unidos sejam
responsabilizados pelas torturas e violações em Guantánamo ou na prisão
iraquiana de Abu Ghraib? - perguntou
A Venezuela, através de seu
embaixador, Fermín Toro, também apresentou reservas, e pediu que os
países que não tenham concluído seu mandato na atual Comissão de
Genebra sejam incorporados como membros no novo órgão.
Muitos
países, entre eles, o Canadá e integrantes da União Européia, assim
como grupos ativistas, têm as mesmas preocupações dos EUA. Mas
rejeitaram a proposta de Bolton de adiar ou renegociar a criação da
entidade, temendo que o resultado final arruinasse todo o esforço
prévio.
O secretário-geral da ONU, Kofi Annan, propôs a criação de
um novo fórum no ano passado, como parte da grande reforma na entidade
global. Mas seu plano inicial acabou muito abrandado na resolução. O
presidente da assembléia, Jan Eliasson, que o negociou por meses,
considerou-o capaz de garantir avanços em relação aos princípios da
Declaração Universal dos Direitos Humanos.
- Chegamos a um momento
decisivo, para a promoção e a proteção dos direitos humanos e para o
multilateralismo. O mundo nunca precisou tanto de uma ONU forte.
Os
membros do conselho serão eleitos por votação secreta pelo voto de
maioria de todos os integrantes, não dos que estão presentes na sessão
de votação. O grupo realizará revisões periódicas do histórico de todos
os membros da ONU no assunto, a começar pelos próprios eleitos. Um país
que viole sistematicamente os direitos humanos pode ser suspenso por
uma votação com maioria de dois terços na Assembléia Geral. Hoje essa
possibilidade não existe.
As cadeiras serão distribuídas entre
grupos regionais: 13 para a África, 13 para a Ásia, seis para o Leste
Europeu, oito para a América Latina e Caribe e sete para um bloco de
países ocidentais, entre eles, os EUA e o Canadá.
A modificação
estrutural foi bem recebida pela União Européia. Em comunicado, o Alto
Representante para a Política Externa e Segurança da UE, Javier Solana
elogiou a decisão.
- A tarefa agora é fazer o conselho funcionar - disse.
O
comunicado afirma que a UE votou a favor do texto, embora preferisse
acordo mais ambicioso. O ministro das Relações Exteriores francês,
Philippe Douste-Blazy, comemorou o que classificou de ''reforço de
legitimidade e credibilidade da ONU''.
Folha de São Paulo
Sem voto dos EUA, ONU cria órgão de direitos humanos/capa
Da Associated Press
Novo colegiado substituirá comissão em que as ditaduras se autoprotegiam; EUA tiveram proposta derrotada
Atropelando
as objeções dos Estados Unidos, a Assembléia Geral da ONU aprovou ontem
por 170 votos a favor e 4 contra, além de 3 abstenções, a criação de um
Conselho de Direitos Humanos, em substituição a uma comissão
desacreditada por sua complacência com regimes ditatoriais.
Os votos
contrários à criação do conselho foram os dos Estados Unidos, de
Israel, das Ilhas Marshall e de Palau. Abstiveram-se a Venezuela, a
Belarus e o Irã. As Nações Unidas têm hoje 191 membros.
O embaixador
americano, John Bolton, declarou que "nos próximos anos poderemos
julgar se criamos um dispositivo competente e forte ou apenas um órgão
que foi o produto de uma solução de compromisso".
O conselho
substitui no organograma da ONU a Comissão de Direitos Humanos,
criticada no ano passado pelo secretário-geral, Kofi Annan, por
permitir que ditaduras protegessem umas às outras e evitassem a votação
de moções de censura que lhes seriam politicamente danosas.
A comissão será abolida em 16 de junho, e o conselho se reunirá pela primeira vez três dias depois.
"Teremos agora pela primeira vez uma oportunidade de lutar pelos direitos humanos em todo o mundo", disse ontem Annan.
O
conselho será integrado por 47 países, eleitos pela maioria das
delegações. Os EUA e Annan queriam que a eleição se desse por dois
terços dos votos.
Pelo texto agora aprovado, os integrantes do
conselho terão seu próprio desempenho na área de direitos humanos
avaliado em cada um dos três anos em que durar seu mandato.
Foi
também decidido que a Assembléia Geral poderá suspender um membro do
conselho, em razão de "sistemáticas violações dos direitos humanos".
Qualquer
integrante desse novo colegiado poderá convocar sessão extraordinária,
com o apoio de dois terços das delegações, para analisar situações
emergenciais.
A proposta americana era a de criar um conselho com 30
membros, do qual estariam excluídos regimes que estivessem sob sanções
da ONU relativas à violação dos direitos humanos.
Uma das surpresas
de ontem foi o voto favorável de Cuba, por mais que sua delegação tenha
procurado introduzir uma proposta que salvaguardasse os países pobres
do julgamento dos países mais ricos. A delegação cubana considerou que
o texto votado se encaixou plenamente na proposta americana.
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