Guarani-kaiowa
estão ameaçados pela Justiça Federal, que decidiu pela reintegração de
posse da área em que eles vivem. Funai vai recorrer. Nove membros da
aldeia, entre eles o cacique, estão presos acusados pela morte de dois
policiais.
Fernanda Sucupira – Carta Maior
SÃO
PAULO – No dia 1º de abril, dois policiais civis foram mortos por
indígenas na aldeia Passo Piraju, a 25 quilômetros da cidade de
Dourados, no Mato Grosso do Sul. A versão dos policiais e de outras
autoridades locais, prontamente encampada por grande parte dos meios de
comunicação, conta que eles entraram na área do acampamento indígena
para investigar o paradeiro do autor de um assassinato e foram vítimas
de uma emboscada. A versão dos indígenas é completamente diferente.
Eles disseram que apenas se defenderam dos policiais, que teriam
chegado atirando, sem nenhuma identificação, numa área que é palco de
sérios conflitos fundiários. A Promotoria de Justiça de Dourados
denunciou nove indígenas pelas mortes, entre eles o cacique Carlito de
Oliveira, e todos estão detidos.
No dia 6 de abril, menos de uma
semana depois desse incidente, a Justiça Federal decidiu pela
reintegração de posse da área num prazo de trinta dias. Os indígenas
guarani-kaiowa que vivem em Passo Piraju afirmam que vão resistir à
remoção até a morte e alguns ameaçam até mesmo cometer suicídio
coletivo, caso sejam obrigados a sair da terra onde moram desde 2004,
com permanência autorizada pela Justiça. A Fundação Nacional do Índio
(Funai), em parceria com o Ministério Público Federal, está apelando
dessa sentença.
“A partir das mortes, criou-se um clima de
grande temor e tensão no ar. Como sempre os indígenas se sentem mais do
que nunca fragilizados e com sua sobrevivência ameaçada. Isso foi
agravado pela decisão de reintegração de posse, que para os guarani é
de extrema violência. Diante dessa ameaça, dessa situação-limite, sem
saber para onde vão, sentindo-se tangidos como animais de um canto para
outro, é compreensível do ponto de vista humano que surjam perspectivas
de saídas de negação da vida”, justifica Egon Heck, coordenador do
Conselho Indigenista Missionário (Cimi) no Mato Grosso do Sul.
Para
ele, a decisão da Justiça logo após a morte dos policiais civis está
ligada a esse acontecimento. “Eles querem simplesmente criminalizar os
indígenas, sendo que é uma situação provocada pela omissão do Estado. A
versão da polícia penaliza mais uma vez os indígenas. Ficou como se
tivesse sido uma ação traiçoeira e brutal, sem nenhuma razão”, avalia.
O
procurador-geral da Funai, Luiz Fernando Villares, concorda que, apesar
de não haver uma ligação direta entre os dois fatos, existe uma relação
política. “A juíza pode ter sido pressionada para tomar essa decisão ou
ter se sentido à vontade para sentenciar esse processo, as mortes deram
chance de ela fazer isso. Isso reforça o clima de preconceito e
intranqüilidade na região, porque além de presos, estão ameaçados de
despejo”, completa Villares. A Funai acredita que seja possível
reverter essa decisão judicial e quer trabalhar com todas as
alternativas antes de pensar num possível confronto. Em último caso, se
não conseguirem revogar a decisão, pretendem tratar com a Polícia
Federal sobre a forma que o despejo vai ser feito, para evitar
violência e mortes. Além disso, o órgão, responsável pela defesa dos
indígenas presos, está tentando transferi-los para Campo Grande,
capital do Estado, onde eles estariam mais seguros, já que o
preconceito, os conflitos e tensões na região ameaçam suas vidas.
De
acordo com o relato dos indígenas sobre as circunstâncias das mortes
dos dois policiais, três homens armados entraram na aldeia, num carro
comum, perguntando pelo cacique Carlito. “Na volta vieram atirando e
atiraram numa casa onde dois indígena Kaiowá estavam cobrindo sua casa
com sapé e um deles foi atingido por um projétil 9 mm, no dedo do pé.
(...) Quando os homens não-índio chegaram no local onde os Kaiowá
estavam reunidos eles começaram a ameaçar com arma de fogo atirando
para o alto, por isso que os Kaiowás que ali estavam investiram contra
os não-indios para desarmá-los foi quando todo o episodio ocorreu”,
contam os moradores de Passo Piraju, em depoimento escrito, entregue à
Comissão Indígena Guarani–Kaiowá, formada por lideranças de aldeias
pertencentes ao Núcleo da Funai de Dourados. Segundo eles, o cacique
estava tomando banho do outro lado do rio nesse momento e não estava no
confronto. Eles contam que, depois disso, chegaram mais de vinte
policiais ameaçando todos, invadindo as casas e falando que iam matar
todos.
Essa investigação policial ocorreu dessa forma ainda
que, em fevereiro deste ano, o grupo de trabalho de segurança pública
de Dourados, composto por representantes da prefeitura municipal, da
Funai, da Funasa, do Ministério Público Federal e dos órgãos de
seguranças pública do Estado, tenha decido que qualquer intervenção
policial em áreas de conflito e em terras indígenas deveria ser
acompanhada pela Funai. No entanto, tal acordo foi totalmente
desconsiderado pela polícia civil nesse caso, com a justificativa de
que não se trata de uma terra indígena oficial.
OMISSÃO DO ESTADO
Em
carta aberta, os antropólogos Rubem Thomaz de Almeida, Fabio Mura e
Alexandra Barbosa da Silva afirmam que nos últimos anos, principalmente
desde 2003, o nível dos conflitos locais entre fazendeiros e índios tem
se acirrado, com “os primeiros procurando cada vez mais se articular
para que sua própria política seja mais eficiente, enquanto que os
segundos multiplicam as reivindicações para recuperar seus territórios
tradicionais”. O que parece surpreendente, segundo eles, é o papel do
Estado, a falta de um posicionamento claro, enérgico e ético, para
enfrentar a situação e dar solução ao problema fundiário local.
Eles
acreditam que o fato da mídia passar uma imagem dos índios como
selvagens e truculentos “permitiu que determinados preconceitos e
estigmas sobre os índios se manifestassem com extrema virulência”, o
que pode colocar em risco “toda a população guarani, inclusive as que
não têm qualquer ligação com o episódio”. Os antropólogos ressaltam
ainda que o modo de proceder dos kaiowa contemporaneamente mostra que
eles “priorizam a via diplomática a arroubos belicosos diante das
muitas ocasiões em que são agredidos pelo ‘branco’”.
Na carta
aberta, eles insistem na necessidade premente do Estado brasileiro se
envolver profundamente com o problema Guarani do Mato Grosso do Sul. “É
seu dever Constitucional assumir e decidir com firmeza e rigor uma
dinâmica para fazer respeitar direitos e investir na composição de uma
instância específica e que unifique organismos de Estado; é seu dever
viabilizar recursos financeiros e humanos, refletir e planejar
estratégias que culminem em soluções efetivas aos problemas fundiários
e de produção de alimentos da população aqui focada”, dizem.
“Até
quando vai continuar tendo que assistir violência, mortes, em função de
um quadro que já devia ter sido resolvido constitucionalmente pelo
governo? A Funai diz que essa etnia do Mato Grosso do Sul é prioridade,
mas por que é uma prioridade se não faz nada?”, questiona Heck,
coordenador do Cimi-MS. “No Mato Grosso do Sul, praticamente 90% das
terras indígenas precisam de regularização ou desintrusão. Esperamos
que a Justiça possa entender a situação e a Funai agilize o processo de
regularização, determine um grupo de trabalho”, conclui.
De
acordo com o órgão governamental, a urgência da identificação das
terras indígenas do Brasil é programada anualmente pela Funai e a de
Passo Piraju está marcada para ser iniciada este ano. O processo é
longo, pode durar de dois a vinte anos, dependendo da resistência dos
fazendeiros e das decisões judiciais.
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