São Paulo
– No dia 18 de junho de 1978, Robson Silveira da Luz, acusado de roubar
frutas na feira, foi preso e levado para o 44o Departamento de Polícia
de Guaianazes, na zona Leste de São Paulo. Ele tinha 27 anos, e era
negro. Torturado pelos policiais, acabou morrendo. Na época, ainda de
ditadura, duas mil pessoas protestaram contra o crime em frente ao
Teatro Municipal de São Paulo. Ali nascia o Movimento Negro Unificado
(MNU), uma das maiores organizações de combate ao racismo do Brasil.
Mais de 20 anos depois do crime, os assassinos de Robson foram
condenados. Mas não foram presos. Hoje, o MNU ainda vê histórias
criminosas de preconceito se repetirem no país.
Na semana
passada, ao lado de 40 entidades de defesa dos direitos humanos, eles
iniciaram uma ampla mobilização para acompanhar o julgamento dos três
policiais militares envolvidos na morte do dentista negro Flávio
Sant´Ana. No dia 3 de fevereiro do ano passado, quando voltava do
aeroporto, Flávio foi parado pela polícia, que o acusou de um assalto a
um comerciante. Antes de poder se explicar, o dentista foi alvejado com
dois tiros. Em seu bolso, os policiais colocaram os documentos do
comerciante e uma arma com registro raspado, para simular resistência.
No dia seguinte, a farsa montada veio à tona quando o comerciante
declarou que Flávio não era o assaltante.
O tenente Carlos
Alberto de Souza, o cabo Ricardo Arce Rivera e o soldado Luciano José
Dias são acusados de homicídio duplamente qualificado, porte ilegal de
armas, fraude processual e coação processual. O cabo Rivera, no curso
do processo, ordenou os soldados Édson Assunção e Magno de Almeida
Moraes a ameaçarem uma testemunha.
“Quando a defesa viu que a
farsa montada havia sido descoberta, mudou seu discurso e disse que os
policiais dispararam porque pensaram que a vítima ia atirar. Eles
trabalham com a tese de legítima defesa, mas com base num ataque
imaginado. E isso também é uma farsa, porque a vítima estava de braços
levantados”, explicou à Agência Carta Maior Alberto
Zacarias Toron, responsável pela acusação ao lado do promotor Francisco
José Taddei Cembranelli. “As provas do processo indicam um assassinato
cruel e covarde por conta de uma atitude preconceituosa da Polícia
Militar, que fuzilou um rapaz com braços erguidos. As testemunhas
afirmam isso, e as provas indicam execução, tiro a curta distância”,
afirma.
O assassinato de Flávio Sant’Ana aumentou as estáticas
que revelam a violência praticada por agentes da segurança pública,
especialmente contra o segmento negro da população brasileira. O caso
confirmou o que o movimento negro brasileiro vem denunciando há
décadas: as atitudes arbitrárias da polícia em relação a população
negra. “80% das vítimas de chacinas são negros com idade entre 14 e 25
anos. E os casos caem sempre na vala comum, de elementos com
envolvimento em tráfico de drogas. Mas a grande maioria das vítimas é
inocente, não tem antecedentes, sem passagem pela polícia”, conta
Regina Lúcia dos Santos, coordenadora municipal do Movimento Negro
Unificado. Entre 22 de junho e 4 de julho deste ano, policiais mataram
19 pessoas em quatro chacinas ocorridas em periferias na Grande São
Paulo – Morro do Samba e Jardim Portinari, em Diadema; Tremembé e
Francisco Morato.
Julgamento adiado Marcado
inicialmente para ter início no dia 3 de agosto, o julgamento dos
policiais militares foi adiado a pedido do advogado da defesa, Marcos
Ribeiro de Freitas, que alegou impossibilidade para a sua atuação por
estar com dores no joelho. Na opinião do movimento negro, foi uma
tática para desmobilizar a população, que estava organizada num ato
político e ecumênico em frente ao Fórum de Santana, onde aconteceria o
julgamento. Naquela manhã, cerca de 200 pessoas, entre parlamentares,
sindicalistas, religiosos e entidades ligadas ao movimento negro e de
direitos humanos, pediram a condenação dos acusados.
“Eles
usaram deste artifício para desmobilizar as entidades, mas o tiro saiu
pela culatra, porque só conseguiram dar mais tempo para nos
organizarmos e trazer mais gente. Vamos estar aqui todos os dias até a
condenação dos assassinos. Queremos a condenação e a prisão deles.
Estamos decididos a dar um basta nas ações da polícia, cuja vítima
principal é a juventude negra que vive na periferia. Temos uma história
de luta contra a violência policial. Isso não vai nos arrefecer”,
garante Regina.
“Havia uma ansiedade para que isso acontecesse
e se chegasse finalmente à condenação, para que justiça fosse feita.
Lamento por esperar mais um pouco. Já faz 18 meses que o Flávio foi
assassinado. É triste isso. Estou indignado com a atitude do advogado.
Tratam a Justiça como se fosse brincadeira. Mas esta é uma luta
interminável”, desabafa Jonas Sant´Ana, pai do dentista. “Tenho certeza
da condenação. Esses policiais vão ser julgados pela sociedade. Podem
trazer o filho e a esposa pra dizer que são boas pessoas, mas a família
paulista é muito grande. Não há justificativa pra todo mundo achar que
pode tirar a vida de uma pessoa e trazer a família pra se defender. A
sociedade vai ver que eles foram culpados”, acredita.
No
próximo dia 16, para quando foi remarcado o início do julgamento,
entidades, familiares de Flávio Sant´Ana e parlamentares farão um
protesto de conscientização contra o racismo em frente ao Fórum. Nesta
sexta (12), uma reunião do movimento negro deve planejar a mobilização.
As entidades também devem fazer uma vigia durante os três dias em que
ocorrerá o julgamento.
Uma história de mobilizações O
caso do assassinato de Flávio Sant´Ana se tornou um referencial para a
luta contra o racismo e a violência policial desenvolvida pelo
movimento negro. Pouco depois da morte do dentista, diante da
indignação da família da vítima, o deputado estadual Sebastião Arcanjo
(PT), o Tiãozinho, e os então ministros Nilmário Miranda, da Secretaria
Especial dos Direitos Humanos (SEDH), e Matilde Ribeiro, da Secretaria
Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir),
visitaram os familiares de Flávio. Na ocasião, anunciaram a criação de
uma comissão especial para acompanhar o caso, formada pelo Ministério
Público Federal, Seppir e SEDH.
No dia 17 de fevereiro do ano
passado, na Assembléia Legislativa de São Paulo, aconteceu um ato
público contra o racismo e a violência policial, organizado pela Frente
Parlamentar em Defesa da Igualdade Racial. Dezenas de representantes do
movimento negro, direitos humanos, mulheres, sindicais, religiosos,
estudantes, da comunidade GLBTT, lideranças políticas e comunitárias
protestaram contra o assassinato de Flávio e cobraram medidas concretas
do governo do Estado, da Secretaria de Segurança Pública e do Comando
da Polícia Militar, para a punição dos envolvidos na sua morte e de
outras vítimas da arbitrariedade policial.
No dia 03 de março,
o governador Geraldo Alckmin recebeu das mãos do movimento negro um
documento com medidas que visam mudar a forma de abordagem e o
tratamento dispensado pela Polícia Militar à população negra. Entre
elas destacam-se a inclusão de 40 horas da disciplina relações raciais
no Brasil nos cursos preparatórios para polícias civil e militar, a
realização de seminários para discutir a elaboração do Boletim de
Ocorrência, o levantamento de mortes ocorridas por trocas de tiros que
tenham o suposto envolvimento de policiais e a implantação de uma
delegacia especial para a investigações de crimes de racismo. Dias
depois, cinco mil pessoas marcharam nas ruas da capital contra a
violência policial, a impunidade e o racismo.
Após a Marcha do
21 de Março, as entidades do movimento negro, em conjunto com a Frente
Parlamentar em Defesa da Igualdade Racial, passaram a se reunir toda
semana na Assembléia Legislativa, para se manterem organizadas como um
fórum de discussão. Um ano depois, já em 2005, essas entidades
realizaram outro ato em homenagem a Flávio Sant´Ana e à luta de sua
família. Agora, o movimento negro, de direitos humanos e contra a
tortura pretendem constituir um fórum permanente para debater a
violência policial, crimes contra o racismo e impunidade.
“A
vontade dos movimentos sociais e das famílias já foi expressa. Vamos
construir essa entidade, no início, com o apoio da Frente Parlamentar,
mas é importante que ela ganhe autonomia. O caso do Flávio certamente
nos fortalece neste sentido. É um caso emblemático pelas circunstâncias
e pela disposição dos familiares em lutar contra a impunidade. Estamos
bastante otimistas com o resultado”, conclui o deputado Tiãozinho.
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