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Mulheres recebem penas mais severas que homens PDF Imprimir E-mail
11 de dezembro de 2005
ImagePara a teóloga Heidi Cerneka, da Pastoral Carcerária, grande parte das quase 6 mil mulheres presas hoje no Brasil por tráfico atuariam como mulas. Foram presas por transportar quantidade muito pequena de entorpecentes.




O tráfico seduz a mulher


Em 10 anos, número de detentas dobrou. Cerca de 60% estão presas por causa de relacionamentos amorosos

Erika Klingl
Correio Braziliense

Fábio Motta/AE
Sabrina Marques, a Brena, presa esta semana por participar de ataque a ônibus no Rio, foi namorada do traficante Lorde, suposto mandante da chacina
 
O tráfico está deixando de ser uma atividade exclusivamente masculina. Cada vez mais, as mulheres têm entrado na criminalidade pela porta do mercado das drogas. As causas são simples, mas de difícil combate por parte do sistema de segurança pública. Muitas escolhem o tráfico por ser um crime que exige menos força física do que um assalto ou seqüestro, por exemplo. Mas a maioria é carregada pelos namorados, maridos e filhos para a criminalidade.

“A observação pode parecer machista, mas não é. As mulheres são muito influenciadas pelos homens para entrar no crime”, afirma o chefe do Departamento Penitenciário Nacional (Depen), Maurício Kuehne. “Sozinha, na maioria das vezes, a mulher só pratica crimes em situação de desespero, como furtar comida para os filhos com fome.”

De acordo com levantamento da Pastoral Carcerária, ligada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), cerca de 60% das mulheres condenadas por participação no tráfico tiveram um empurrãozinho de seus maridos ou namorados. “Muitas são convencidas a levar drogas para a prisão, quando vão visitar seus parceiros e, por isso, são condenadas e acabam presas também”, afirma a juíza Kenarik Boujikian Felippe, do Grupo de Estudos e Trabalho Mulheres Encarceradas. Ela lembra que o aumento da participação feminina no tráfico não é um fenômeno exclusivamente brasileiro. Nos Estados Unidos, tal como no Brasil, infração à lei de entorpecentes também é a principal causa de condenações das mulheres.

E não são poucas as condenadas. Há 10 anos, 3% de toda a população carcerária brasileira era composta por mulheres. Hoje, são quase 7% dos 360 mil presos em todo o país. O número pode parecer pequeno, mas trata-se de um grupo com características próprias. Entre os homens, o principal motivo das prisões segue sendo o roubo (65% dos casos), segundo o último censo penitenciário, feito há dois anos. É seguido do tráfico, com 18%.

No caso das mulheres, o tráfico é a principal causa de prisões femininas. Em São Paulo, cerca de 55% das mulheres foram presas por esse crime. De acordo com a Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal, a capital não foge à regra. Aqui, mais de 60% das presas foram condenadas por infringirem o artigo 12 do Código Penal, que trata dos entorpecentes.

Topo da carreira
A situação é tão grave que já existem funções no tráfico que são ocupadas preferencialmente por mulheres. São elas que conversam com os compradores e que fazem a mistura da pasta base da cocaína com bicarbonato. “As mulheres também são as preferidas para assumir papel de mulas, principalmente na hora de tirar as drogas do país”, explica Guaracy Mingardi, um dos diretores do Instituto Latino-Americano das Nações Unidas para Prevenção do Delito e Tratamento do Delinqüente (Ilanud).

E, assim como acontece no mercado de trabalho formal brasileiro, as mulheres do tráfico também ganham menos do que os homens. A desigualdade de gênero impera de tal maneira no tráfico que é muito raro uma mulher estar à frente do negócio. “Já vi casos de donas de bocas-de-fumo, mas não grandes chefes de tráfico”, aponta Mingardi.

L., 13 anos, que participou do ataque ao ônibus 350 na semana passada no Rio de Janeiro, faz parte do exército de mulheres que atualmente trabalha na venda de drogas. Para ela, o tráfico foi a ilusão de uma saída mais simples do que pedir dinheiro nas ruas ou roubar. Analfabeta, em depoimento prestado à polícia fluminense, ela contou que perdeu a mãe há menos de um ano e que começou aos 7 anos de idade a pedir dinheiro nas ruas do Rio de Janeiro para comprar comida. Depois, foi adotada pelo tráfico, em especial pelo traficante Anderson Gonçalves do Santos, o Lorde. Foi a namorada dele, Sabrina Aparecida Marques Mendes, 21, a Brena, que ajudou L. a parar o ônibus para que, em seguida, os traficantes ateassem fogo nele. Na ação, cinco pessoas morreram carbonizadas, entre elas uma criança de 1 ano e dois meses de idade.

“Os traficantes trazem essas meninas para perto para fazer serviços mais simples e as seduzem para o crime”, resume Guaracy Mingardi. “E não existe nenhuma política pública federal, municipal ou estadual para evitar que isso aconteça.”


Penas mais severas do que as aplicadas aos homens

Júlio Cesar Costa/AAN/AE
Iolanda Figueiral, 79 anos, doente terminal de câncer : 4 anos de prisão
 

Para a legislação brasileira, o tráfico de drogas é considerado um crime hediondo, assim como um homicídio cometido com crueldade. A pena deve ser cumprida obrigatoriamente em regime fechado. Para a teóloga Heidi Cerneka, da Pastoral Carcerária, grande parte das quase 6 mil mulheres presas hoje no Brasil por tráfico atuariam como mulas. Foram presas por transportar quantidade muito pequena de entorpecentes. Ou porque estavam em casa quando a polícia chegou. O crime mais comum entre os homens é o de roubo, que admite diversos benefícios, inclusive a progressão do cumprimento da pena, que vai do fechado até o regime semi-aberto. Resumindo: presas, as mulheres cumprem penas mais pesadas do que muitos homens que incorreram em crimes mais graves.

Para corrigir o que Cerneka acredita ser uma distorção da Lei de Crimes Hediondos, seria necessário uma revisão na legislação penal. “Em alguns casos, o crime deveria ter um tratamento diferenciado, pois trata-se de uma quantidade muita pequena de drogas”, avalia.

Uma das propostas apresentadas ao final do Encontro Nacional do Grupo de Trabalho sobre Mulheres Encarceradas, realizado no ano passado, é a criação de Varas de Execução Especiais para as mulheres. Os profissionais de direito só atuariam nesses casos. E tenderiam, portanto, a ser mais sensíveis às especificidades femininas, julgando de maneira diferenciada caso a caso.

A revisão da legislação poderia evitar casos como o da ex-bóia-fria de 79 anos, Iolanda Figueiral. Doente terminal de câncer de ovário e de intestino, pesando menos de 40 quilos, ela está na cama de uma penitenciária em São Paulo, longe dos quatro filhos, dos 15 netos e dos 15 bisnetos. É uma das mais de 600 presas da Penitenciária Feminina do Tatuapé, na zona leste da capital. A acusação: tráfico de drogas.

Iolanda era presa provisória até a última terça-feira, quando foi condenada a quatro anos de prisão em regime fechado. Ela nega o crime. Policiais encontraram 19 pedras de crack na sua casa. Ela foi presa com o filho, de 40 anos, há quase quatro meses, na periferia da cidade de Campinas, a 95 km de São Paulo. A idosa afirma que a droga foi jogada na sua casa por um estranho, momentos antes da chegada da polícia. O advogado da família, Rodolpho Pettená Filho, e a Pastoral Carcerária tentaram em vão tirá-la da cadeia.

Pediram à Justiça tudo o que era possível: relaxamento da prisão por falta de prova, liberdade provisória em caráter excepcional, indulto humanitário e prisão albergue domiciliar. Iolanda não tem antecedentes criminais, tem residência fixa e vive com a aposentadoria de R$ 300. Mesmo assim, a Justiça negou. Ela cumpriá pena. (EK)


No Rio, as musas dos donos do pó


A namorada do chefe do tráfico já é quase uma instituição nos morros cariocas. São jovens, muitas delas de classe média, seduzidas pelo poder e dinheiro dos criminosos. A explicação para o comportamento é simples. “Além de os traficantes poderem comprar vários presentes e proporcionar luxo às adolescentes e jovens, existe o charme do proibido”, justifica Guaracy Mingardi, um dos diretores do Instituto Latino-Americano das Nações Unidas para Prevenção do Delito e Tratamento do Delinqüente (Ilanud).

Mas é bom as mulheres não se iludirem. A vida de amante de criminoso tem lá seus perigos. No início do mês, Monique Evelyn Lindolfo do Rêgo Rizzo, 20 anos – uma das “viúvas” de Erismar Rodrigues Moreira, o Bem-Te-Vi, chefe do tráfico na Rocinha, morto em novembro – foi ameaçada de morte por um bandido enciumado. Segundo a polícia, a loira abandonou o traficante Antônio José de Souza Ferreira, o Tota, chefe da Fazendinha, no Complexo do Alemão, na capital fluminense, para ficar com o ex-líder do tráfico na Rocinha.

Quando foi presa, dias depois da morte de Bem-Te-Vi, estava com um grande ferimento no braço esquerdo. No relato que fez à polícia, contou que fora esfaqueada por sua rival, Verediana Alves Miranda, 26 anos, outra namorada de Bem-Te-Vi, detida na mesma época.

Vários namorados
Bem-Te-Vi e Tota não foram os únicos namorados de Monique. De acordo com investigações da polícia, ela namorou chefes de várias quadrilhas, como Luiz Cláudio Caetano Rodrigues, o Lourinho, e Ademir Carlos Pereira, o Pezão, do bando de Ronaldo Duarte Barsotti de Freitas, o Naldinho. Ela também estava sendo cobiçada por um aliado de Bem-Te-Vi: o traficante Gilson Ramos da Silva, o Aritana, que nunca escondeu sua paixão pela musa do tráfico.

As namoradas de Pedro Dom, o bandido de classe média morto em setembro que roubava apartamento de luxo, também não ficam atrás. Sua namorada mais recente, Jacqueline Rodrigues, está presa em Vitória depois de assaltar residências no Espírito Santo, mesmo crime que já cometera no Rio e em Porto Alegre. O primeiro amor de Pedro Dom não era diferente. Aos 17 anos, ele começou a namorar Bibiana Roma Correa. Ex-mulher de Mauricinho Botafogo, ela se tornara uma espécie de primeira-dama da quadrilha de assaltantes a residências. Foi com Bibiana que Pedro Dom começou a invadir prédios. Até ser pego e morto pela polícia. (EK)


 
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