Ir direto ao conteúdo

FENDH

Narrow screen resolution Wide screen resolution Increase font size Decrease font size Default font size default color black color cyan color green color red color
Início arrow Biblioteca arrow Arquivo das Notícias arrow Direito dos Indígenas arrow Segurança de fazendeiro confessa assassinato de indígena
Segurança de fazendeiro confessa assassinato de indígena PDF Imprimir E-mail
29 de dezembro de 2005
ImageO assassinato do líder guarani-caiouá Dorvalino Rocha, no último sábado, no Mato Grosso do Sul, expõe a fragilidade da política indigenista do governo Lula, na avaliação de organizações não-governamentais. Segurança de fazendeiros diz que matou líder guarani-caiouá, em Mato Grosso do Sul, em legítima defesa. Cimi lança críticas ao governo Lula e diz que média de legalização de terras é a menor dos últimos 20 anos





André Carravilla
Correio Braziliense

Antônio Viegas/Correio do Estado
Garantia: o presidente da Funai (de calça azul) e o ministro Paulo Vanucchi querem a revisão da liminar concedida pelo STF contra os índios
 
Fim do mistério. Quatro dias depois da morte do líder guarani-caiouá Dorvalino Rocha, em Antônio João, a 300km de Campo Grande, em Mato Grosso do Sul, a Polícia Federal descobriu o nome do assassino: João Carlos Gimenez Brites. Segurança contratado pelos fazendeiros da região para impedir possíveis invasões de terras pelos índios, ele se apresentou no fim da tarde da terça-feira e confessou o crime. Brites foi indiciado por homicídio doloso (com intenção de matar) e pode ser condenado de seis a 20 anos de prisão.

Apesar de confessar o crime, o segurança vai responder ao processo em liberdade. A polícia não viu razões para prendê-lo, já que não houve flagrante. Além disso, há outros atenuantes: o acusado tem endereço fixo, sem antecedentes criminais e apresentou-se à polícia. A delegada Penélope Gama, que preside o inquérito e coordena o trabalho das três equipes que atuam na região, disse que os depoimentos dos colegas de Brites já o indicavam como autor dos disparos. “Ele era o chefe da equipe e o único com autorização para portar uma arma”, afirmou a policial.

Brites alegou legítima defesa. Disse que foi cercado pelos índios quando tentava entrar no carro da Gaspem, a empresa de segurança contratada pelo fazendeiros. Para assustar os guaranis-caiouás que o estariam ameaçando, atirou contra o chão. A delegada disse que ainda não recebeu o laudo do Instituto Médico Legal (IML), mas foi informada que o líder indígena foi atingido no peito.

Os índios contestam a versão de que o segurança foi cercado. “O Dorvalino estava só com o cunhado, como é que duas pessoas iam cercar um carro com quatro pessoas dentro?”, questionou a líder guarani-caiouá Léia Aquino, que integra a Comissão Direitos Indígenas. “Eles desceram e já foram atirando”, disse. A denúncia dela é baseada no relato de um terceiro índio que testemunhou o crime.

Para a delegada, a confissão de Brites não encerra as investigações. Ela ainda pretende ouvir colegas de trabalho do assassino confesso e colher depoimentos de índios que testemunharam o crime. Para a polícia, até agora não existem indícios de que o segurança tenha agido a mando de algum fazendeiro, mas ainda é cedo para descartar a hipótese. “Por enquanto não há nada que leve a essa conclusão, mas ainda vamos investigar”, afirma.

Briga jurídica
Os fazendeiros de Antonio João disputam com os 450 índios guaranis-caiouás a posse de 9,3 mil hectares da área conhecida como Nhanderu Marangatu, que já foi reconhecida e homologada pelo governo federal como área indígena. Os donos das fazendas Fronteira, Pequiri, Santa Creuza, Ita Brasília e Morro Alto conseguiram uma liminar assinada pelo presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Nelson Jobim, suspendendo temporariamente a homologação. No último dia 15, os índios foram retirados das terras em uma ação da Polícia Federal e desde então estão acampados na estrada de terra que dá acesso às fazendas.

Em visita à região na última terça-feira, o secretário Especial de Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, disse que o governo federal vai trabalhar para que o Supremo reveja a decisão. Ele anunciou que os departamentos jurídicos do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e da Fundação Nacional do Índio (Funai) foram acionados para recorrer da decisão. Vannuchi foi à região acompanhado do presidente da Funai, Mércio Pereira Gomes e de dois delegados da Polícia Federal.

Ambos deixaram o local prometendo alimentos para os índios, um local provisório para abrigar as famílias que deixaram as suas terras na região de Antônio João, reforço na segurança e rigor nas investigações do assassinato do índio. Os índios receberam cestas de alimento do Ministério do Desenvolvimento Social. A água chega por meio de um encanamento vindo da Vila Campestre, mas é insuficiente para suprir todas as necessidades.



O número
Desterrados
450 índios guaranis-caouás estão vivendo em acampamento improvisado

Regularizações estão em ritmo lento, diz ONG


O assassinato do líder guarani-caiouá Dorvalino Rocha, no último sábado, no Mato Grosso do Sul, expõe a fragilidade da política indigenista do governo Lula, na avaliação de organizações não-governamentais. “O que está sendo feito é menos do que nos governos anteriores. Na época do (presidente João) Figueiredo, a média era de oito portarias declaratórias por ano. No governo Lula, a média é de seis”, critica Saulo Feitosa, vice-presidente do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), entidade ligada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

O aumento do ritmo das regularizações era uma das principais reivindicações das etnias durante o chamado Abril Indígena, nome dado aos protestos realizados por índios, há oitos meses, em diferentes partes do país.

“O governo manipula os dados. O que eles fazem é homologar terras que já foram declaradas indígenas. Isso não representa nenhum ônus político ou financeiro para o governo federal”, lamenta Feitosa. O vice-presidente do Cimi lembra que o processo de regularização passa por quatro etapas: a Funai deve fazer um estudo fundiário e demarcar as terras, o ministério da Justiça publica a portaria declaratória e o presidente homologa as terras. “Só a homologação não quer dizer nada. A parte difícil já foi feita”, sustenta.

Em entrevistas recentes à imprensa, o presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), Mércio Pereira Gomes, disse que desde 2003 foram homologadas 53 terras indígenas e que esses números superam os dos últimos governos. No Ministério da Justiça, a assessoria informou que, devido ao recesso de final de ano, não havia quem pudesse rebater as críticas do Cimi.

Os representantes das 30 etnias que estiveram em Brasília durante o manifesto Abril Indígena peregrinaram pelos principais gabinetes da capital, entre eles os do presidente da Funai e do ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos. Queriam saber do governo quais eram as iniciativas para a melhoria da qualidade de vida dos povos. Saíram da capital federal apenas com promessas. Levantamento divulgado este mês pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostrou que as condições de vida nas aldeias são mais precárias do que a média nacional. Apenas 16% das comunidades indígenas contam com abastecimento de água e 3,3% com a coleta de lixo.

Promessas
Durante o Abril Indígena, além de cobrarem maior agilidade no processo de regularização, os povos indígenas exigiram a criação do Conselho Nacional de Política Indigenista, compromisso assumido pelo então candidato à presidência Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002. Pela proposta de campanha, o conselho teria poder deliberativo e seria formado por índios, entidades não-governamentais e representantes do governo. Ao todo, seriam 53 integrantes. A idéia era que o grupo coordenasse as ações que hoje estão dissolvidas entre vários ministérios e fundações, como a Funai e a Fundação Nacional de Saúde (Funasa). Os índios acusam a Funasa de maus-tratos e consideram o órgão responsável pelas mortes de 21 crianças indígenas, na aldeia Pacurity, a 30km de Dourados (MS), no início do ano. Todas as crianças foram vítimas de desnutrição.

Até agora não há previsão de o conselho ser criado. O governo acena apenas com a instalação da Comissão Nacional de Política Indigenista, que teria 15 integrantes, funcionaria por tempo determinado e não teria poder deliberativo. A idéia, contudo, desagrada às organizações da sociedade civil. (AC)


BRASIL - QUADRO-RESUMO DAS TERRAS INDÍGENAS
(Atualizado em 24/10/2005)

 

SITUAÇÃO

Nº. DE TERRAS

%

Registradas

323

38

Homologadas

54

6,35

Declaradas

39

4,59

Identificadas

37

4,35

A Identificar

134

15,76

Sem Providências

229

26,94

Reservadas/Dominiais

34

4

TOTAL

850

100,00

QUADRO GERAL DAS TERRAS INDÍGENAS POR ESTADOS

 

UF

Reg

Hom

Dec

Ident

A Ident

Res

Sem Prov

Total

AC

24

1

1

1

9

1

2

39

AL

2

0

0

1

2

4

4

13

AM

83

26

11

9

52

0

20

201

AP

4

0

0

0

0

0

1

5

BA

9

0

2

0

5

5

4

25

CE

0

1

1

3

2

0

5

12

ES

3

1

0

0

0

0

0

4

GO

4

0

1

0

0

0

1

6

MA

13

3

0

0

1

0

0

17

MG

4

1

0

0

1

0

3

9

MT

48

1

2

5

13

1

18

88

MS

17

5

3

3

10

8

74

120

PA

24

1

7

2

25

3

20

82

PB

2

0

0

1

0

0

0

3

PE

4

1

2

0

2

2

3

14

PR

8

1

0

3

1

6

13

32

RJ

3

0

0

0

0

0

0

3

RO

16

0

1

0

1

0

17

35

RR

21

8

0

1

0

0

0

30

RS

15

1

3

2

4

0

32

57

SC

3

1

3

4

3

4

7

25

SP

9

2

1

2

1

0

5

20

SE

1

0

0

0

0

0

0

1

TO

6

0

1

0

2

0

0

9

TOTAL

323

54

39

37

134

34

229

850

Reg: Registradas - Hom: Homologadas - Dec: Declaradas - Ident: Identificadas
A ident: A identificar - Res: Reservadas - Sem Prov: Sem Providências

I fonte:  Cimi - Assessoria Jurídica


 

Guarani-Kaiowá fazem cobranças depois da morte de mais uma liderança

Mais uma liderança indígena é dizimada no Mato Grosso do Sul. Autor do crime se entregou à PF e disse que atirou em "legítima defesa". Povo pede apuração do caso e resolução na Justiça para o conflito fundiário. Ministro visitou a área e prometeu série de providências.
Jonas Valente - Carta Maior    29/12/2005

Brasília - Há cinco dias (24), em plena véspera de natal, foi registrado o 35º assassinato de indígenas no Brasil neste ano. Desta vez, a vítima foi Dorvalino Rocha, líder do povo Guarani-Kaiowá, morto no município de Antônio João, a 300 Km de Campo Grande. Rocha foi atingido por disparos de arma de fogo empunhada por João Carlos Gimenez. segurança de fazendeiros da região que se entregou na última terça-feira (28) à Polícia Federal (PF) em Ponta Porã-MS. Os representantes dos Guarani-Kaiowá e entidades indigenistas cobram agora providências não somente para que o caso seja apurado, mas na resolução da situação do povo, que sofre com as investidas (leia também: PF despeja 700 no Mato Grosso do Sul por intransigência do STF e Kaiowás ameaçados de despejo prometem resistir “até a morte”) sobre a Terra Indígena Nhanderu Marangatu, homologadas pelo presidente Lula em março de 2005.

A violência tem sido constante na vida dos Guarani-Kaiowá. Segundo dados do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), dos 35 assassinatos envolvendo indígenas registrados este ano, 25 ocorreram no Mato Grosso do Sul. As disputas judiciais pelos 9,3 mil hectares ocupados pelo povo corroboram para que a situação dos indígenas seja de extrema gravidade. "No Mato Grosso do Sul, criou-se uma estrutura fundiária baseada na grande propriedade rural, que se constitui com a usurpação das terras indígenas por fazendeiros preconceituosos e pelo desalojamento dos pequenos agricultores. Isso leva a uma negação permanente dos direitos dos povos indígenas a suas terras tradicionais. Este contexto abre espaço para a violência que se vê em todo o Estado", explica Egon Heck, representante do Cimi no estado.

A tensão aumentou ainda mais após o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Nelson Jobim, ter concedido no último dia 15 liminar favorável à reintegração de posse para fazendeiros da região mesmo após a terra dos indígenas ter sido homologada pelo Governo Federal. "Há uma forte influência desses fazendeiros, desse setor econômico, sobre o Poder Judiciário. Os membros desse Poder às vezes vêm desse setor. Outras vezes são ligados a ele, e isto gera decisões judiciais que normalmente são desfavoráveis aos índios e favoráveis a esta estrutura implantada. A pressão que existe para manter esta realidade de concentração de terras e do poder econômico baseado nela cria uma tensão permanente contra os indígenas", avalia Heck.

Como na maioria dos crimes cometidos este ano, os indígenas lutam agora para garantir uma punição efetiva dos culpados. Isso significa provar o assassinato intencional e chegar aos mandantes, que geralmente são os donos de terras interessados na expulsão dos povos de suas terras. Seguindo a infeliz rotina dos crimes contra indígenas, mais uma vez os acusados negam qualquer intenção e defendem a tese de legítima defesa. Foi a versão apresentada pelo autor dos disparos, João Carlos Gimenez.

Segundo Gimenez, ele e mais três funcionários estavam tentando entrar num carro da empresa de segurança Gaspem quando foram cercados por um grupo de indígenas. Para assustar os Guarani-Kaiowá e garantir a sua partida, Gimenez teria atirado para o chão. O relato foi duramente contestado pelos indígenas, que defendem a versão de crime premeditado. "O Dorvalino estava só com o cunhado, como é que duas pessoas iam cercar um carro com quatro pessoas dentro? Eles desceram e já foram atirando", disse a líder Guarani-Kaiowá Léia Aquino, que integra a Comissão de Direitos Indígenas, em entrevista ao jornal Correio Braziliense.

A Polícia Federal espera agora o resultado do exame de corpo de delito que deve sair na próxima semana para tirar conclusões mais precisas. "Iremos ver a análise sobre o trajeto da bala para confirmar ou não a versão dos envolvidos. De acordo com este resultado, novos depoimentos serão tomados", afirma a delegada responsável pelo caso, Penélope Automar. A delegada também creditou o crime à tensa disputa vivida entre os Guarani-Kaiowá e os fazendeiros da região. "Nós vivemos um problema fundiário muito grande e ainda é uma disputa que não tem uma resposta definitiva. Muitas vezes acontece de um tribunal passar um posicionamento e haver recursos nos tribunais superiores. Ao passar de um grupo para outro o problema vai se acirrando e a tensão cresce", avalia.

Providências

Já no dia 25, o recém-empossado ministro da Secretaria Especial dos Direitos Humanos (SEDH), Paulo Vannuchi, foi ao local do assassinato. Juntaram-se a ele também o presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), Mércio Pereira, e dois delegados da PF. Os representantes do governo fizeram reuniões com os indígenas e as autoridades locais e visitaram o local onde Dorvalino Rocha foi morto, onde assistiram mais um ritual indígena de homenagem à sua liderança. Os indígenas reforçaram a necessidade de garantia de apuração efetiva do caso, uma vez que o judiciário e a polícia da região têm ligação com o poder econômico local, e providências para a situação caótica vivida pelos Guarani-Kaiowá.

Após a liminar de reintegração de posse concedida por Nelson Jobim, cerca de 500 dos 730 índios que antes ocupavam o local foram despejados e permanecem em estruturas precárias na beira de uma estrada. Na opinião do presidente da Funai, a ida de autoridades do governo ao local já foi uma sinalização de que serão tomadas providências. "A presença de diferentes órgãos do Estado colocou uma certa garantia de que haverá um compromisso do governo brasileiro de apoiá-los dentro do que estabelece a lei", disse para a Agência Brasil.

Em entrevista para a Carta Maior, Paulo Vannuchi informou que já foram tomadas algumas providências no âmbito do governo Federal. A Polícia Federal garantiu que fará uma apuração séria e imparcial do caso, o Ministério do Desenvolvimento Social (MDS) irá garantir cestas básicas por meio do programa Bolsa Família e a Fundação Nacional de Saúde (Funasa) reforçará o apoio aos indígenas. O governo do Mato Grosso do Sul também se comprometeu a disponibilizar uma unidade móvel da polícia para garantir a segurança dos Guarani-Kaiowá desalojados de suas terras.

Já a Funai se comprometeu a atuar junto ao STF para tentar mudar a posição do presidente Jobim e reverter o fato inédito da primeira sustação de homologação de terra indígena da história do país. A Funai também está tentando negociar junto ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) a desapropriação de uma terra localizada em vila próxima à região antes ocupada pelos indígenas.

Monitoramento e pressão

Na avaliação do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), o desafio agora é manter a vigilância constante e a mobilização em apoio à causa indígena, principalmente na garantia do direito à terra para os povos da região. Heck informa que a entidade está preparando uma campanha para sensibilização nacional e internacional sobre esse direito, que incluirá uma grande assembléia no do povo Guarani no início de 2006, com indígenas de todos os países do Cone Sul da América Latina reunidos no Rio Grande do Sul. "A questão de Nhanderu Marangatu certamente estará presente, pois o julgamento do processo no Supremo Tribunal Federal precisa acontecer na próxima reunião, que deve ocorrer também em fevereiro", diz Heck.

Na avaliação do missionário, os defensores da causa indígena irão congregar a ação junto ao STF com pressão local, pois é nas localidades onde o Judiciário manifesta maior ligação com o poder econômico. "Até lá [a assembléia dos Guarani], pretendemos manter uma presença mais sistemática em relação ao Poder Judiciário, para ampliar a compreensão sobre a questão dos Guarani e para que as decisões sejam tomadas com maior conhecimento sobre a realidade".

As disputas em curso, entretanto, não diminuem a pressão das organizações para o que o governo melhore sua política com relação às terras indígenas, cuja lentidão tem contribuído para o aumento da violência e da tensão de conflitos envolvendo indígenas.


 
< Anterior   Próximo >