| Água e Cidadania |
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| 11 de janeiro de 2006 | |
Se sairmos um
pouco do cenário de crise política que arrasa o País, poderemos dizer
que a questão ambiental foi o centro das atenções e debates no ano de
2005 e, se reparamos bem, no temário ambiental o principal mote foi a
água. A água é substância fundamental para a existência da vida no
planeta, mas devido ao seu mau uso, também provoca destruições,
catástrofes, conflitos e mortes.
ALEXANDRE RAMOS
Se sairmos um
pouco do cenário de crise política que arrasa o País, poderemos dizer
que a questão ambiental foi o centro das atenções e debates no ano de
2005 e, se reparamos bem, no temário ambiental o principal mote foi a
água. A água é substância fundamental para a existência da vida no
planeta, mas devido ao seu mau uso, também provoca destruições,
catástrofes, conflitos e mortes. Em escala
global, o ano foi marcado por catástrofes naturais que apontam a reação
da natureza ao impacto ação humana. Mal foi iniciada a reconstrução dos
países atingidos por uma onda gigante chamada tsunami, outras
catástrofes aconteceram com mais intensidade em todo o mundo: grandes
furacões, terremotos e enchentes que atingiram e destruíram histórias
de vidas e culturas como num piscar de olhos – estima-se que
desmatamentos e poluição causada por gases têm modificado o ciclo do
clima na Terra. Já o degelo nos pólos norte e sul modifica a pressão
das placas que causam os terremotos. No Brasil, vendavais, ciclones ou
furacões (ainda não se sabe ao certo) estão freqüentes na Região Sul.
No Norte, a novidade foi a estiagem na Amazônia, que secou rios, o que
imaginávamos impossível de acontecer. Boa parte disso
é resultado da ação predadora do homem sobre os recursos naturais. Essa
ação de desmando que cometemos habitualmente contra a natureza tem seu
efeito imediato, em especial sobre os recursos hídricos do Planeta – o
crescimento do consumo de água e a urbanização acelerada, o uso e
ocupação do solo de forma desordenada nas margens dos rios, o
lançamento de lixo e esgotamentos sanitários, a extração desordenada de
areia e argila, a destruição da matas ciliares e a desproteção de
estuários e nascentes. Tais desmandos têm tornado precário o acesso às
águas superficiais e têm causado diminuição da vazão natural dos rios,
da qualidade e da disponibilidade da água. Os governos
(municipais, estaduais e federal), induzem estes desmandos, não
cumprindo as leis e concedendo licenças a grandes empreendimentos que
normalmente causam impacto, violação e conflito no uso da água. Como reação,
2005 foi um ano de mobilização social para fortalecer o direito à água
como direito humano. Em janeiro de 2005, o V Fórum Social Mundial, em
Porto Alegre, construiu a Plataforma Global de Luta pela Água
(declarando a água como um direito humano, em mãos públicas e
combatendo todas as modalidades de privatização), mobilizações contra o
aumento das tarifas de energia e transporte, mas também contra a
transposição do São Francisco e outras obras hídricas, vimos debates
públicos para construção de um Plano Nacional de Recursos Hídricos e da Política Nacional de Saneamento ambiental,
vimos os movimentos em marcha pela reforma urbana levando 5 mil pessoas
às ruas do Recife, entre outras mobilizações em todo o Brasil. No
âmbito local, pela primeira vez, aconteceu um encontro estadual dos
COBHs e um seminário entre redes e fóruns de Pernambuco para pensarem
estratégias para o direito à água como um direito humano. E, para
fechar o ano, em dezembro, instituições de toda a América Latina
participaram do Encontro Latino Americano por uma Nova Cultura da Água,
criando estratégias de enfrentamento coletivo para os diversos
problemas referentes aos recursos hídricos. Tal participação
se faz extremamente necessária para que não precisemos sacrificar
pessoas que defendem as águas com sua própria vida, como vimos a greve
de fome do bispo Luiz Flávio Cappio contra a transposição do Rio São
Francisco e o ato desesperado do ambientalista Francisco Anselmo, que
se matou ateando fogo em seu corpo na defesa dos rios do Pantanal e
contra as usinas de álcool na região. Estas reações produziram
resultados. Em Pernambuco, por exemplo, a mobilização da sociedade, em
conjunto com o Comitê da Bacia do Rio Una, resolveu um conflito
existente na foz do Rio Una, que serve de referência como conquista da
população. Esse conjunto de
questões demonstra que 2006 será um ano muito movimentado. É mais que
necessário enfrentar o debate e mostrar que a questão das águas não é
um assunto de técnicos, é sim uma causa de todas as pessoas. Pessoas
que enfrentam todo tipo de realidade, que lutam por água como direito
essencial, que exigem melhores condições de salubridade e desenvolvem
ações que buscam qualidade de vida digna. Publicado em 03.01.2006 - Jornal do Commercio (Recife –PE) fonte: http://www.fase.org.br/conteudo.asp?conteudo_id=3753 |
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