A
Organização das Nações Unidas (ONU) criticou ontem, por meio de um
documento, as políticas nacionais de combate ao racismo e a demora na
demarcação de terras indígenas. Ao atacar o racismo, a ONU alerta que o
problema ainda está profundamente enraizado no Brasil e denuncia o fato
de que partes do aparelho de Estado, Judiciário e mesmo a sociedade
civil resistem a medidas de combate ao racismo.
Texto integral (em inglês) do relatório sobre racismo e xenofobia no Brasil você encontra na Biblioteca na sessão Relatórios .
Organismo faz 35 recomendações e critica governo e sociedade civil, que resistem a lutar contra o problema
Jamil Chade
O Estado de S.Paulo (18/03/2006)
GENEBRA
A
Organização das Nações Unidas (ONU) criticou ontem, por meio de um
documento, as políticas nacionais de combate ao racismo e a demora na
demarcação de terras indígenas. Ao atacar o racismo, a ONU alerta que o
problema ainda está profundamente enraizado no Brasil e denuncia o fato
de que partes do aparelho de Estado, Judiciário e mesmo a sociedade
civil resistem a medidas de combate ao racismo. Essas são algumas das
conclusões do relatório feito pelas Nações Unidas sobre a situação da
discriminação no País. Apesar de elogiar o fato de o governo reconhecer
a existência do problema, a ONU alerta que as declarações ainda não se
traduziram em mudanças concretas. Por isso, faz cerca de 35
recomendações sobre como superar a questão.
"Viajar pelo
Brasil é como mover-se entre dois planetas: um das ruas com cores vivas
e raças misturadas e outro dos corredores brancos dos poderes político,
social, econômico e da mídia", afirmou o autor do relatório, o
senegalês Doudou Diène, que esteve no Brasil em outubro de 2005 para
investigação o racismo. Para ele, é chocante a presença ainda tímida de
negros em cargos administrativos. Nos bancos, por exemplo, apenas 10,8%
dos funcionários são negros.
"Há coisas muito graves ocorrendo
no Brasil", afirmou o especialista ao Estado. O documento será
apresentado aos demais países membros da ONU. O relator identifica o
racismo como uma conseqüência e um legado do período da escravidão.
"Afeta profundamente a estrutura da sociedade brasileira", afirma o
documento. Diène acredita que uma mudança de mentalidade ainda será
difícil, principalmente por causa da ideologia da democracia racial ou
do fato de muitos acreditarem que as discriminações no Brasil são
apenas econômicas.
"Democracia racial é a máscara ideológica
da elite brasileira para não dizer que há racismo", critica o relator.
Segundo ele, enquanto persistir a idéia de que a discriminação é só
econômica, a implementação de leis de combate ficará difícil. "A
discriminação, exploração e marginalização continuam hoje", afirma o
especialista. Ele lembra que 47% dos negros vivem abaixo da linha da
pobreza, contra uma taxa de 22% entre os brancos. Toda a sociedade está
organizada a partir de uma perspectiva racista: os negros são excluídos
de todos os setores da sociedade e confinados aos trabalhos difíceis,
com baixos salários e direitos básicos, incluindo à vida, sendo
violados", alerta o documento.
Um dos pontos que mais chama a
atenção da ONU é a violência contra os negros. Diène aponta que 631
negros foram assassinatos em Salvador nos oito primeiros meses de 2005,
um aumento de 19% em relação a 2004. "Uma política de extermínio ainda
existe. Os negros não se sentem protegidos pelas autoridades públicas e
são confundidos com traficantes de drogas e criminosos."
A
impunidade estaria no centro da preocupação da entidade. "Os jovens
estão nas mãos de traficantes e a polícia não os protege. Ao contrário,
os mata. Os negros são criminalizados", aponta o relatório. A pobreza
da população negra também seria outra prova do racismo.
Segundo
o documento, mais da metade dessa parcela da população vive abaixo da
linha da pobreza, sem saúde e com um nível de analfabetismo
"inaceitavelmente alto".
As mulheres negras vivem uma situação
ainda mais delicada: ganham 40% dos salários pagos a um homem branco.
Um quinto delas é trabalhadora doméstica, das quais 17% nem sequer
recebem pelo trabalho. Para Diène, há ainda "uma apropriação indevida
da cultura", com a manipulação das manifestações artísticas para
objetivos comerciais, como o carnaval, que "virou um espetáculo para
brancos".
IMIGRANTES
O relatório ressalta que a
discriminação não ocorre apenas contra negros. Segundo a ONU, o Brasil
precisa treinar seus agentes de fronteiras para respeitarem os direitos
de refugiados e imigrantes.
Quanto à imigração
latino-americana em São Paulo, que chegaria a 150 mil, Diène destaca
que são alvos de discriminação, vivem com medo da polícia e não
conseguem ter acesso à saúde e educação. Para que uma família seja
legalizada, os custos exigiriam, em alguns casos, o salário de todo um
ano.
RECOMENDAÇÕES
Para tentar lidar com as realidades
brasileiras, a ONU enumerou mais de 35 recomendações. Uma delas prevê a
criação de uma comissão de reconciliação e verdade sobre o racismo,
além de destinar mais recursos para programas de combate à
discriminação.
Diène ainda pede que medidas sejam tomadas para
lidar com a violência e o treinamento de procuradores e juízes
especializados na questão racial. "O Judiciário é muito conservador e
com preconceitos raciais", afirma. As recomendações também falam na
inclusão de classes de história da África nas escolas, a criação de um
memorial para as vítimas da escravidão e ações para garantir o acesso
dos negros às universidades.
ONU: Brasil deve ampliar ações afirmativas
Relator
especial sobre racismo propõe que o país adote plano nacional de
erradicação da discriminação, com medidas em todas as áreas
da PrimaPagina
Adotar um programa nacional de erradicação da discriminação racial, com
ações afirmativas em todos os níveis da sociedade e abrangendo as áreas
econômica, social, política e cultural. Essa é uma das 35 recomendações
feitas ao governo brasileiro pelo relator especial da ONU para Formas
Contemporâneas de Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e
Intolerância, o senegalês Doudou Diène.
O documento
é a avaliação final do especialista sobre sua viagem em missão oficial
ao Brasil, realizada entre 17 e 26 de outubro do ano passado. Na
ocasião, ele entrevistou autoridades e representantes da sociedade
civil em seis cidades — Brasília, Salvador, Recife, Pesqueira (PE), Rio
de Janeiro e São Paulo.
Desde 1995, quando houve a visita do predecessor de Diène, o Brasil
conquistou avanços importantes no combate à discriminação racial,
inclusive com a adoção de cotas para negros em universidades públicas,
de acordo com o relator. O país ainda precisaria, no entanto, de um
programa mais consistente. O especialista propõe uma política de
erradicação do racismo que envolva todos os ministérios e que inclua
iniciativas nos âmbitos municipal, estadual e nacional. “O Congresso
Nacional deve ser convidado pelo governo a debater e aprovar o programa
e alocar os recursos necessários à sua implementação”, propõe Diène.
O relatório aponta como “manifestação mais impressionante” da
discriminação brasileira a marginalização dos indígenas e dos negros, o
que revela a persistência de um “racismo estrutural e sistêmico”.
“Viajar no Brasil é como transitar simultaneamente em dois planetas
diferentes, no das cores vivas e da mistura de raças nas ruas e no dos
corredores quase completamente brancos dos poderes político, social,
econômico e midiático”, ressalta o relator.
Diène elogiou o fato de o governo federal ter reconhecido que o racismo
é um problema de raízes profundas e estar ciente dos efeitos que ele
tem na estrutura da sociedade. Ressalvou, no entanto, a resistência de
governos, do Judiciário e até mesmo da sociedade, às políticas de
promoção da igualdade racial, como as ações afirmativas. Ele aponta,
por exemplo, a posição do prefeito de Recife, que, de acordo com o
relator, afirmou que o racismo não é um “problema pertinente”,
argumentando que o país tem “ídolos negros no esporte e na música, o
que mostra que não há racismo”. O prefeito ainda teria dito, segundo o
relatório, que, “entretanto, quando o racismo ocorre, ele é denunciado
e sancionado”.
Para tentar mudar esse cenário, o relator recomenda, além da adoção de
um plano nacional para erradicação do racismo, uma série de medidas que
vão da escolha de um presidente indígena para a FUNAI (Fundação
Nacional do Índio) à formação de juízes e promotores especialistas em
discriminação para aplicarem as leis já existentes. Diène ainda propõe
a criação de uma comissão nacional de combate ao racismo, formada por
representantes da sociedade civil; a realização de um censo nas
comunidades quilombolas e a construção de um “memorial nacional sobre a
escravidão”, como um tributo às milhões de vítimas e para “preservar a
memória do componente afrodescendente na história brasileira”.
fonte: Pnud Brasil
http://www.pnud.org.br/raca/reportagens/index.php?id01=1882&lay=rac
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